﻿# Quem tem culpa olha para o nariz

Fonte: https://vbfelix.github.io/posts/0045-culpa-no-olhar/index.html

### Seis pontos de olhar a menos

Trinta e dois participantes assistiram ao vídeo de uma pessoa levando choque. Quando o jogo dizia que a falha era deles, o olhar ficou nos olhos da pessoa em 32% do tempo que passaram olhando o rosto dela. Quando a falha era da própria pessoa, 38% ([Yu, Duan e Zhou, *Guilt in the eyes: Eye movement and physiological evidence for guilt-induced social avoidance*, Journal of Experimental Social Psychology, 2017](https://doi.org/10.1016/j.jesp.2017.03.007), seção 3.1.2). O olhar não some. Desce para o nariz.

### Por que o culpado não encara a vítima

O estudo parte de uma pergunta simples: por que quem causou um dano evita olhar nos olhos de quem sofreu ([Yu et al., 2017](https://doi.org/10.1016/j.jesp.2017.03.007), introdução). Uma possibilidade que os autores levantam é que o contato visual com a vítima dispara a sensação de estar sendo julgado e acusado. Para quem se sente culpado, isso pesa mais, e desviar o olhar seria uma forma de evitação social: fugir do contato que dói.

A literatura anterior já tinha medido o que a culpa leva a pessoa a fazer, como pedir desculpa e compensar. Segundo os autores, nenhum estudo tinha medido o corpo durante a interação com a vítima. Por isso o estudo tem dois experimentos. No primeiro, o participante olha livremente para o rosto do parceiro, e um *eye tracking*, uma câmera que registra para onde o olho aponta, grava o caminho do olhar. No segundo, o participante é obrigado a fixar os olhos ou o nariz do parceiro. O que se mede ali é a condutância da pele, que sobe com a excitação emocional.

### Culpa de laboratório tem de doer em alguém

A parte mais difícil de um experimento sobre culpa é fazer a pessoa se sentir culpada por algo que parece ter machucado outra pessoa. Ler um cenário e imaginar não basta. A solução dos autores foi montar um jogo com consequência aparente ([Yu et al., 2017](https://doi.org/10.1016/j.jesp.2017.03.007), seção 2).

O participante chega sozinho ao laboratório e encontra outra pessoa do mesmo sexo, apresentada como um dos jogadores. Ouve que quatro jogadores vão participar de um jogo, cada um numa sala. Ouve também que a pessoa que acabou de conhecer vai jogar com os outros dois, e não com ele, para tirar da conta a familiaridade e a distância social. Os dois parceiros dele são os outros dois jogadores, que ele só vê em vídeo. Para o participante, o jogo acontece ao vivo. Os jogadores, na verdade são pessoas combinadas com os pesquisadores, que se passam por participantes. 

Antes do jogo, o participante recebe um eletrodo no pulso esquerdo e passa por uma calibração de dor. Ele classifica uma série de estímulos numa escala de 1 a 8 e depois recebe quatro períodos de 10 segundos de choque no nível 6. A instrução é que quem tiver de receber choque no jogo vai receber nessa mesma intensidade. Esse procedimento existe para a ameaça parecer real. 

O jogo é estimar quantos pontos há numa imagem. O participante joga com cada parceiro em quatro blocos de dez tentativas, oito blocos no total. No começo de cada bloco, um sorteio aparente escolhe o participante ou o parceiro para levar choque se a dupla falhar. A dupla falha quando o participante ou o parceiro erra cinco ou mais das dez tentativas. 

O resultado de cada bloco vem de um programa. Nos blocos em que o participante foi sorteado, a dupla acerta e ninguém leva choque. Nos blocos em que o parceiro foi sorteado, a dupla falha e o parceiro leva choque. Numa dessas vezes o resultado diz que a falha foi do participante, e essa é a condição de culpa. 

Quarenta estudantes participaram. Oito foram excluídos, por não lembrar no fim quem eram os dois parceiros ou por erro na calibração do *eye tracking*. Sobraram 32, metade mulheres, de 19 a 24 anos ([Yu et al., 2017](https://doi.org/10.1016/j.jesp.2017.03.007), seção 2.3.1).

O estudo traz uma checagem de manipulação: a conferência de que a condição produziu o estado que se quer estudar. Depois do jogo, o participante responde numa escala de 1 a 7 o quanto se sentiu culpado em cada condição. A média foi 5,8 na condição de culpa e 2,4 no controle ([Yu et al., 2017](https://doi.org/10.1016/j.jesp.2017.03.007), Tabela 2). Sem esse número, o resto do estudo não teria o que explicar.

### Contar para onde o olho vai é a parte fácil

O *eye tracking* registra a posição do olho 500 vezes por segundo ([Yu et al., 2017](https://doi.org/10.1016/j.jesp.2017.03.007), seção 2.3.2). Cada vídeo tem quatro episódios de 15 segundos, com 5 segundos de rosto neutro e 10 segundos de choque, mais 1 a 5 segundos de rosto neutro no final, para o vídeo não cortar na dor. Dá de 61 a 65 segundos.

Sobre o rosto do parceiro, os autores desenham três áreas de interesse: olhos, nariz e o resto do rosto. O painel A da figura mostra o recorte. Como o confederado ficou com a cabeça parada, as áreas valem para o vídeo inteiro.

![Figura 2 de Yu et al. (2017). (A) As três áreas de interesse sobre o rosto do parceiro. (B) Duração média de fixação, em milissegundos. (C) Percentual do tempo total de permanência. (D) Percentual da contagem de fixações. Os painéis B, C e D comparam a condição de culpa com o controle, por área. Reproduzida de Journal of Experimental Social Psychology, doi 10.1016/j.jesp.2017.03.007. © 2017 Elsevier Inc.](https://vbfelix.github.io/posts/0045-culpa-no-olhar/fig-aoi-e-medidas.png)

O olho para num ponto, pula, para em outro. Cada parada é uma fixação, e as três medidas do estudo são contas sobre as fixações dentro de cada área:

- **Tempo de permanência.** A soma da duração de todas as fixações feitas numa área, dividida pelo tempo total de fixação no rosto. Responde quanto do olhar foi para ali;
- **Contagem de fixações.** O número de fixações numa área, dividido pelo total de fixações no rosto. Responde quantas vezes o olhar foi para ali;
- **Duração média de fixação.** A soma da duração das fixações numa área, dividida pelo número de fixações nela. Responde quanto tempo cada parada durou.

As duas primeiras viraram percentuais do total do rosto, para facilitar a comparação entre as medidas. A terceira fica em milissegundos. O tamanho de cada área não entra na conta, porque a comparação é sempre entre as duas condições dentro da mesma área. Na figura, os painéis B, C e D mostram, nessa ordem, a duração média, o tempo de permanência e a contagem.

Agora o modelo. Cada participante passa pelas duas condições e vê os mesmos parceiros. Cada um dos quatro confederados aparece nos dados de muitos participantes. Há gente que olha mais nos olhos por hábito, e há rosto que atrai mais o olhar. Se a análise ignorar isso, a diferença entre culpa e controle fica misturada com a diferença entre pessoas e entre rostos.

Os autores usam um modelo linear misto. Misto porque junta dois tipos de efeito. A condição, culpa ou controle, entra como efeito fixo, que é o que se quer estimar. Participante e parceiro entram como efeitos aleatórios, e cruzados porque cada participante vê mais de um e cada um é visto por mais de um participante. 

### Os olhos perdem, o nariz ganha, o resto empata

A Tabela 3 do estudo traz as nove combinações de área e medida. O valor entre parênteses é o erro padrão. O t é da diferença entre culpa e controle, negativo quando a culpa tem o valor menor, e "< 1" quer dizer abaixo de 1 em módulo, longe do corte. O asterisco marca t acima de 1,96 em módulo ([Yu et al., 2017](https://doi.org/10.1016/j.jesp.2017.03.007), Tabela 3).

| Área | Medida | Culpa | Controle | t |
|---|---|---|---|---|
| Olhos | Tempo de permanência (%) | 32,2 (2,9) | 38,2 (3,1) | −2,09* |
| Olhos | Contagem de fixações (%) | 33,6 (2,7) | 37,7 (2,8) | −1,57 |
| Olhos | Duração média (ms) | 466 (28) | 560 (36) | −2,35* |
| Nariz | Tempo de permanência (%) | 28,0 (2,2) | 23,5 (1,5) | 2,41* |
| Nariz | Contagem de fixações (%) | 27,6 (1,8) | 24,2 (1,3) | 2,36* |
| Nariz | Duração média (ms) | 565 (49) | 577 (43) | < 1 |
| Resto | Tempo de permanência (%) | 39,7 (2,7) | 38,3 (2,6) | < 1 |
| Resto | Contagem de fixações (%) | 38,8 (2,3) | 38,1 (2,4) | < 1 |
| Resto | Duração média (ms) | 539 (33) | 614 (55) | −1,47 |

Nos olhos, o tempo de permanência cai e cada fixação fica mais curta na condição de culpa, de 560 para 466 milissegundos. A parcela de fixações nos olhos também cai, de 37,7% para 33,6%, mas a diferença não passa do corte.

O nariz recebe o que os olhos perderam. **Na condição de culpa, o tempo de permanência nos olhos caiu de 38,2% para 32,2%, e no nariz subiu de 23,5% para 28,0%.** A parcela de fixações no nariz também sobe. A duração média não muda de forma que o teste detecte: as paradas no nariz acontecem mais vezes, com duração parecida.

### Olhar para o nariz pode ser outra coisa

O estudo lista as próprias ressalvas, e as duas mudam o que dá para concluir ([Yu et al., 2017](https://doi.org/10.1016/j.jesp.2017.03.007), seção 4).

A primeira é a leitura alternativa do achado central. O participante culpado pode não estar fugindo dos olhos. Pode estar procurando a região do rosto que mais informa sobre a dor do outro. Os autores rebatem com um estudo em que pessoas buscavam ver o sofrimento de um rival, por prazer, e argumentam que quem se sente culpado dificilmente teria essa motivação. Eles mesmos dizem que não eliminam a alternativa.

A segunda ressalva é desse experimento. Para garantir que o grupo do nariz não visse os olhos do parceiro, os autores cobriram os olhos no vídeo com um retângulo preto. O grupo dos olhos viu o rosto inteiro. A diferença de condutância entre os grupos pode vir, em parte, da diferença de informação visual, e não só de onde o olhar estava preso. Os autores argumentam, com um estudo de expressão facial, que a informação sobre dor está mais na bochecha e no nariz do que nos olhos, e que por isso o grupo do nariz não viu menos dor. Um argumento ainda não é um experimento de controle.

Da próxima vez que ler um experimento desses, procure duas coisas antes da tabela de resultados. Procure sempre entender como o estudo foi desenhado, e como o dado foi medido, que diz se a condição produziu o estado que o estudo quer medir. Procure os efeitos aleatórios do modelo, que dizem o que foi tirado da conta antes de comparar as condições.
