Criando meu clone com IA
Na época da Copa, brincamos na empresa que precisávamos de um Vini Jr. Um clone meu para responder às perguntas e apoiar o time quando eu não estivesse disponível.
Tínhamos várias fontes de conhecimento, mas faltavam centralidade e curadoria. Um dos desafios era saber como consultar aquele conteúdo e estruturar as respostas. A informação existia; organizar seu uso fazia parte do problema.
Foi dessa brincadeira que veio a ideia de salpicar uma wiki com a minha personalidade e tentar criar meu clone com inteligência artificial (IA). Criticismo, ceticismo extremo e uma pitada de chatice. Essa parte funcionou: às vezes, a quantidade de perguntas irritava.
Um fim de semana e alguns vestibulares
Quando conheci o conceito de LLM Wiki, apresentado por Andrej Karpathy, fiquei maravilhado. LLM é a sigla em inglês para grande modelo de linguagem, o tipo de modelo usado para compreender e gerar texto. A proposta era usar esses modelos para construir e manter uma base de conhecimento organizada, com páginas ligadas entre si e alimentadas por fontes.
O que me atraía era organizar informação para a própria IA consultar. Eu queria consultas mais rápidas, com menor gasto de tokens, as unidades de texto processadas pelo modelo, e menos alucinações, respostas que parecem plausíveis, mas não têm sustentação.
Meu primeiro segundo cérebro foi para a empresa em que eu trabalhava. O maior desafio estava na entrada: selecionar e incorporar conteúdo curado, lidar com múltiplas fontes e resolver muitas divergências.
Foram 35 horas de trabalho em um fim de semana e mais de 500 perguntas respondidas. Acredito que fiz alguns vestibulares ali.
O acervo exigia decisões. O fato de uma informação estar escrita não encerrava a discussão sobre o que ela significava ou como deveria ser usada. Para organizar esse trabalho, impus algumas regras:
- Perguntas críticas bloqueavam conteúdo. Certas lacunas precisavam ser respondidas antes de permitir o avanço.
- Consultar a internet era proibido. O trabalho precisava se apoiar nas fontes fornecidas.
- Divergências e respostas precisavam de dono declarado. Era necessário identificar quem respondia por elas.
A construção da base exigia minha participação justamente nos pontos em que havia ambiguidade. O volume de perguntas fazia parte desse esforço de curadoria.
O clone precisava saber por onde pensar
A wiki, por si só, não foi suficiente. Eu queria que o time tivesse acesso também à forma como eu pensava a empresa.
Passei para ela uma estrutura de entidades e ligações. As entidades eram os elementos que eu distinguia naquele contexto; as ligações registravam como eles se relacionavam. Essa organização servia de base para orientar a consulta.
Dependendo da pergunta, eu definia por onde começar. A partir das relações, indicava por onde seguir e até onde chegar. O conhecimento ganhava caminhos de investigação.
Isso fazia diferença para o que eu estava tentando construir. Ter conteúdo disponível atendia à necessidade de memória. Para apoiar o trabalho do time, eu também precisava explicitar como usava aquele conteúdo para examinar uma questão.
Meu critério precisava aparecer na estrutura. A IA teria de conseguir percorrer relações que, para mim, faziam parte do entendimento da empresa.
Um pouco de mim, inclusive a chatice
A brincadeira com o Vini Jr. deu nome ao tipo de apoio que queríamos. Usei minhas instruções pessoais e a memória do meu chat para trazer características do meu comportamento: criticismo, ceticismo extremo e disposição para questionar.
A personalidade tinha uma função no trabalho. Eu queria que ela examinasse o motivo por trás de um pedido e insistisse nos pontos que precisavam ser esclarecidos. Às vezes, isso significava fazer perguntas suficientes para irritar quem estava do outro lado.
O objetivo era não deixar a pessoa seguir sem o motivo correto.
Esse comportamento complementava as regras da base. Havia conhecimento organizado para consultar, caminhos para investigar e uma postura de questionamento diante do que ainda precisava de fundamento.
Especializar para trabalhar com o time
Criei também skills, conjuntos de instruções para executar operações específicas. Nesse caso, eram voltadas aos processos do trabalho de produto.
Eu definia o formato da entrega e o aprofundamento esperado em cada operação. Isso permitia padronizar o trabalho do time e organizar a forma de atuar com aquele conhecimento.
O segundo cérebro passou a combinar:
- Uma base curada, com fontes e divergências tratadas.
- Uma estrutura de consulta, com entidades, relações e caminhos definidos conforme a pergunta.
- Um comportamento crítico, que questionava motivos e premissas.
- Instruções para operações de produto, com formato e profundidade controlados.
Era essa combinação que aproximava a ferramenta do apoio que eu queria oferecer quando não estivesse disponível.
Quando coloquei meu clone à prova
Em um teste, peguei um projeto que eu mesmo tinha desenhado e escrito. Trouxe uma pessoa do time para analisá-lo comigo e com a IA.
Eu perdi para ela.
A IA recuperou decisões antigas, restrições e premissas que eu já não tinha na cabeça. Apontou possíveis bloqueios, dependências e implicações que não estavam explícitos. Também conectou informações que eu conhecia separadamente.
O desconforto estava em reconhecer que boa parte daquele conhecimento tinha saído de mim. Eu conhecia os pedaços, mas não tinha feito todas aquelas ligações ao examinar o projeto.
Foi uma demonstração concreta do que eu buscava: um sistema capaz de usar o contexto que eu havia organizado para questionar o trabalho, inclusive o meu.
Aprendizados, limites e principais impactos
Não sei se foi a melhor aplicação possível de uma wiki. Foi uma tentativa de clonagem que apoiou meu time e, naquele teste, trouxe pontos que eu havia deixado passar.
Da construção, ficaram alguns aprendizados:
- A curadoria exigiu julgamento. As horas e as perguntas fizeram parte do trabalho de organizar fontes, esclarecer divergências e atribuir responsabilidade pelas respostas.
- Conhecimento disponível não bastou para o apoio que eu queria. Precisei explicitar relações, caminhos de consulta e critérios que usava para pensar a empresa.
- A personalidade precisava servir ao trabalho. O ceticismo e as perguntas insistentes tinham o objetivo de exigir fundamento antes do avanço.
- A especialização ajudou a padronizar a atuação. As skills definiam operações de produto, formato de entrega e profundidade.
- O teste mostrou o valor de recuperar e conectar contexto. A IA levantou questões que eu não havia levantado no meu próprio projeto.
Talvez meu clone não fosse tão criativo. Mas, naquele teste, lembrou do que eu tinha esquecido e fez ligações que eu deixei passar. Era esse tipo de apoio que eu queria tornar disponível para o time.