Criando meu clone com IA

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Autor

Vinícius Félix

Data de Publicação

12 de setembro de 2026

Na época da Copa, brincamos na empresa que precisávamos de um Vini Jr. Um clone meu para responder às perguntas e apoiar o time quando eu não estivesse disponível.

Tínhamos várias fontes de conhecimento, mas faltavam centralidade e curadoria. Um dos desafios era saber como consultar aquele conteúdo e estruturar as respostas. A informação existia; organizar seu uso fazia parte do problema.

Foi dessa brincadeira que veio a ideia de salpicar uma wiki com a minha personalidade e tentar criar meu clone com inteligência artificial (IA). Criticismo, ceticismo extremo e uma pitada de chatice. Essa parte funcionou: às vezes, a quantidade de perguntas irritava.

Um fim de semana e alguns vestibulares

Quando conheci o conceito de LLM Wiki, apresentado por Andrej Karpathy, fiquei maravilhado. LLM é a sigla em inglês para grande modelo de linguagem, o tipo de modelo usado para compreender e gerar texto. A proposta era usar esses modelos para construir e manter uma base de conhecimento organizada, com páginas ligadas entre si e alimentadas por fontes.

O que me atraía era organizar informação para a própria IA consultar. Eu queria consultas mais rápidas, com menor gasto de tokens, as unidades de texto processadas pelo modelo, e menos alucinações, respostas que parecem plausíveis, mas não têm sustentação.

Meu primeiro segundo cérebro foi para a empresa em que eu trabalhava. O maior desafio estava na entrada: selecionar e incorporar conteúdo curado, lidar com múltiplas fontes e resolver muitas divergências.

Foram 35 horas de trabalho em um fim de semana e mais de 500 perguntas respondidas. Acredito que fiz alguns vestibulares ali.

O acervo exigia decisões. O fato de uma informação estar escrita não encerrava a discussão sobre o que ela significava ou como deveria ser usada. Para organizar esse trabalho, impus algumas regras:

  • Perguntas críticas bloqueavam conteúdo. Certas lacunas precisavam ser respondidas antes de permitir o avanço.
  • Consultar a internet era proibido. O trabalho precisava se apoiar nas fontes fornecidas.
  • Divergências e respostas precisavam de dono declarado. Era necessário identificar quem respondia por elas.

A construção da base exigia minha participação justamente nos pontos em que havia ambiguidade. O volume de perguntas fazia parte desse esforço de curadoria.

O clone precisava saber por onde pensar

A wiki, por si só, não foi suficiente. Eu queria que o time tivesse acesso também à forma como eu pensava a empresa.

Passei para ela uma estrutura de entidades e ligações. As entidades eram os elementos que eu distinguia naquele contexto; as ligações registravam como eles se relacionavam. Essa organização servia de base para orientar a consulta.

Dependendo da pergunta, eu definia por onde começar. A partir das relações, indicava por onde seguir e até onde chegar. O conhecimento ganhava caminhos de investigação.

Isso fazia diferença para o que eu estava tentando construir. Ter conteúdo disponível atendia à necessidade de memória. Para apoiar o trabalho do time, eu também precisava explicitar como usava aquele conteúdo para examinar uma questão.

Meu critério precisava aparecer na estrutura. A IA teria de conseguir percorrer relações que, para mim, faziam parte do entendimento da empresa.

Um pouco de mim, inclusive a chatice

A brincadeira com o Vini Jr. deu nome ao tipo de apoio que queríamos. Usei minhas instruções pessoais e a memória do meu chat para trazer características do meu comportamento: criticismo, ceticismo extremo e disposição para questionar.

A personalidade tinha uma função no trabalho. Eu queria que ela examinasse o motivo por trás de um pedido e insistisse nos pontos que precisavam ser esclarecidos. Às vezes, isso significava fazer perguntas suficientes para irritar quem estava do outro lado.

O objetivo era não deixar a pessoa seguir sem o motivo correto.

Esse comportamento complementava as regras da base. Havia conhecimento organizado para consultar, caminhos para investigar e uma postura de questionamento diante do que ainda precisava de fundamento.

Especializar para trabalhar com o time

Criei também skills, conjuntos de instruções para executar operações específicas. Nesse caso, eram voltadas aos processos do trabalho de produto.

Eu definia o formato da entrega e o aprofundamento esperado em cada operação. Isso permitia padronizar o trabalho do time e organizar a forma de atuar com aquele conhecimento.

O segundo cérebro passou a combinar:

  • Uma base curada, com fontes e divergências tratadas.
  • Uma estrutura de consulta, com entidades, relações e caminhos definidos conforme a pergunta.
  • Um comportamento crítico, que questionava motivos e premissas.
  • Instruções para operações de produto, com formato e profundidade controlados.

Era essa combinação que aproximava a ferramenta do apoio que eu queria oferecer quando não estivesse disponível.

Quando coloquei meu clone à prova

Em um teste, peguei um projeto que eu mesmo tinha desenhado e escrito. Trouxe uma pessoa do time para analisá-lo comigo e com a IA.

Eu perdi para ela.

A IA recuperou decisões antigas, restrições e premissas que eu já não tinha na cabeça. Apontou possíveis bloqueios, dependências e implicações que não estavam explícitos. Também conectou informações que eu conhecia separadamente.

O desconforto estava em reconhecer que boa parte daquele conhecimento tinha saído de mim. Eu conhecia os pedaços, mas não tinha feito todas aquelas ligações ao examinar o projeto.

Foi uma demonstração concreta do que eu buscava: um sistema capaz de usar o contexto que eu havia organizado para questionar o trabalho, inclusive o meu.

Aprendizados, limites e principais impactos

Não sei se foi a melhor aplicação possível de uma wiki. Foi uma tentativa de clonagem que apoiou meu time e, naquele teste, trouxe pontos que eu havia deixado passar.

Da construção, ficaram alguns aprendizados:

  • A curadoria exigiu julgamento. As horas e as perguntas fizeram parte do trabalho de organizar fontes, esclarecer divergências e atribuir responsabilidade pelas respostas.
  • Conhecimento disponível não bastou para o apoio que eu queria. Precisei explicitar relações, caminhos de consulta e critérios que usava para pensar a empresa.
  • A personalidade precisava servir ao trabalho. O ceticismo e as perguntas insistentes tinham o objetivo de exigir fundamento antes do avanço.
  • A especialização ajudou a padronizar a atuação. As skills definiam operações de produto, formato de entrega e profundidade.
  • O teste mostrou o valor de recuperar e conectar contexto. A IA levantou questões que eu não havia levantado no meu próprio projeto.

Talvez meu clone não fosse tão criativo. Mas, naquele teste, lembrou do que eu tinha esquecido e fez ligações que eu deixei passar. Era esse tipo de apoio que eu queria tornar disponível para o time.