UX com produtos físicos, o puro suco da estatística
Um dos projetos mais interessantes de que participei envolvia uma indústria de mochilas para crianças e adolescentes. A empresa queria entender o que fazer para seu próximo lançamento.
Eu entendia de mochilas? De moda? Nada. Mas conhecia delineamento de experimentos.
Definir como medir, quem medir e como analisar os dados era uma parte enorme do que eu fazia, especialmente nos projetos acadêmicos. Nesse trabalho, esse repertório foi parar diante de mochilas, estojos, crianças e adolescentes escolhendo produtos e mostrando como os usavam.
Era pesquisa sobre experiência de uso com um produto físico. E havia muita estatística nesse trabalho antes mesmo de existir uma planilha para analisar.
Transformar a pergunta da empresa em uma investigação
A pergunta era ampla: o que deveria orientar o próximo lançamento? Para investigá-la, trabalhamos com aspectos de estética, funcionalidade e tendências, considerando diferentes estratos de idade e renda e examinando também diferenças entre os sexos.
Minha contribuição estava no delineamento dessa investigação: definir quem medir, como medir e como analisar os dados. Montamos um estudo com diferentes formas de avaliação, combinando observação de uso, contato com os produtos, perguntas individuais e discussão em grupo.
Esse trabalho se conectava à minha experiência com análise sensorial. Na faculdade, eu frequentava o departamento de Engenharia de Alimentos e havia participado de várias avaliações desse tipo. Levamos aspectos desse repertório para a pesquisa com mochilas, especialmente o contato com o objeto que seria avaliado.
Falar sobre tecido, tamanho, bolso ou tipo de alça pode ser bastante abstrato. Com uma mochila à frente, a pessoa pode olhar, tocar e examinar essas características. Por isso, planejamos a avaliação a partir dos exemplos físicos e das variações que a empresa disponibilizaria.
Delinear é decidir como produzir os dados
Delinear um experimento é planejar como produzir os dados que permitirão responder a uma pergunta. Isso envolve definir o que será comparado, quem participará, o que cada pessoa fará, quais respostas serão registradas e como elas serão analisadas.
O instrumento de coleta, a quantidade de participantes e a forma de apresentar as alternativas fazem parte desse planejamento. A maneira como organizamos uma avaliação determina as comparações que poderemos fazer depois.
No nosso caso, havia questões sobre o uso da mochila, sobre as características dos produtos e sobre os critérios de escolha. Organizar essas perguntas exigia pensar tanto nas atividades quanto na sequência em que elas aconteceriam.
Planejamos a identificação dos alunos e de seus objetos, uma dinâmica de manuseio, a descrição das mochilas e dos estojos, a exposição de produtos, um questionário e um grupo focal. Cada procedimento tinha uma função na investigação.
| Etapa planejada | Como seria a coleta | O que buscávamos conhecer |
|---|---|---|
| Dinâmica de uso | Observar e filmar o aluno manuseando a mochila e se deslocando com ela | Uso prático do produto |
| Descrição dos objetos | Pesar a mochila e registrar características dela e do estojo | Os objetos que os alunos já utilizavam |
| Exposição de produtos | Apresentar exemplos físicos e colher preferências por características | Avaliação de tamanhos, cores, tecidos, compartimentos, bolsos e alças |
| Questionário individual | Perguntar sobre rotina, compra e importância dos atributos | Hábitos de uso e critérios declarados de escolha |
| Grupo focal | Conduzir uma discussão sobre utilidade, estética e significado da mochila | Percepções e argumentos apresentados na conversa |
O roteiro do questionário incluía frequência de uso e troca da mochila, deslocamento até a escola, atividades extracurriculares, viagens, objetos transportados e participação dos responsáveis na compra. Também incluía a avaliação de atributos como tamanho, cor, estampa e compartimentos.
A orientação era responder individualmente, sem interferência dos colegas. Reservamos outro momento para a conversa em grupo. A ordem das atividades foi essencial, assim como o isolamento dos participantes em certas dinâmicas para evitar a contaminação cruzada de opiniões. A distinção entre responder sozinho e discutir com os outros fazia parte do desenho da pesquisa.
Uma mochila no chão e um trajeto pela frente
Uma das atividades mais interessantes envolvia pegar a mochila do chão e seguir um trajeto. Observando essa ação, vimos diferenças relacionadas à idade na maneira de usar alças e rodinhas.
Na dinâmica de manuseio, planejamos uma sequência simples: tirar a mochila, abri-la, pegar o estojo, fechá-la e levar os dois objetos ao local seguinte. O foco estava no uso prático, com uma tarefa definida.
As conversas sobre os produtos também trouxeram detalhes concretos de funcionalidade. Ao avaliar um dos modelos, alguns meninos apontaram que uma alça fina poderia causar desconforto ao caminhar bastante ou carregar muito material. Disseram que não comprariam aquela mochila com essas alças, mesmo achando o produto bonito.
Em outro momento, os participantes manifestaram preferência por mochilas com duas alças, mas também relataram que costumavam carregá-las usando apenas uma. A preferência por uma configuração e a maneira de utilizá-la apareciam lado a lado no mesmo estudo.
É nesse nível de detalhe que uma discussão sobre experiência de uso ganha corpo. Espessura da alça, forma de carregar, quantidade de material e deslocamento entravam na avaliação. Uma característica do produto era examinada em relação ao que a pessoa fazia com ele.
Escolher uma mochila também era olhar para os outros
Outra atividade colocava os participantes diante de uma mesa com várias opções, para escolher uma mochila que levariam para si. Nessa situação, observamos as crianças menores se espelhando nos adolescentes.
É o tipo de comportamento que parece óbvio depois de contado. Para nós, tinha aparecido durante a pesquisa, em uma situação concreta de escolha. Havia dados de uma experiência realizada com os participantes para sustentar a conversa.
Na discussão sobre tendências, a influência do ambiente escolar apareceu entre as meninas. Entre os meninos daquele grupo, não identificamos uma influência aparente de colegas ou de pessoas da mídia. As respostas variavam conforme os participantes e a situação investigada.
Os detalhes estéticos também trouxeram diferenças. Na apresentação de uma mochila com elementos de “gatinho”, as meninas mais velhas gostaram dos detalhes adicionais, enquanto algumas mais novas demonstraram rejeição ou indiferença.
Essas observações faziam parte do mesmo problema de pesquisa: entender preferências por produtos que seriam usados por crianças e adolescentes, considerando suas diferenças. Estética, funcionalidade e tendências apareciam nas escolhas e nos argumentos apresentados durante as atividades.
O que o grupo focal acrescentava
Um grupo focal é uma discussão conduzida por um moderador em torno de um assunto. A interação entre os participantes faz parte da produção dos dados: as pessoas respondem, complementam, discordam e apresentam experiências ao ouvir as outras.
A preparação envolve o roteiro, a composição dos grupos e a condução da conversa. O moderador precisa manter o foco e estimular a participação. Depois, a análise examina o conteúdo das falas, incluindo os pontos de concordância e as divergências.
No nosso grupo focal, começamos explorando associações à escola e à mochila. Apareceram sentimentos negativos ligados a acordar cedo e ir às aulas, ao lado de uma associação positiva com as amizades. Ao pensar na mochila no quarto, os participantes lembraram de escola, tarefa e obrigações.
A conversa também trouxe usos fora da sala de aula, como viagens, futebol, bicicleta e curso de inglês. A mochila estava inserida numa rotina mais ampla do que carregar material escolar.
Durante as apresentações dos produtos, surgiram comentários sobre zíperes que travavam, tecidos, tamanho, forro e quantidade de compartimentos. Um modelo tipo saquinho foi considerado pequeno para comportar o material escolar. Em outro, houve boa receptividade à cor, aos detalhes e aos compartimentos.
Essas falas davam conteúdo a palavras como “conforto” e “preferência”. Podíamos acompanhar os argumentos que os participantes apresentavam ao avaliar um produto, incluindo as discordâncias e as indecisões.
Era uma parte qualitativa importante do trabalho. Além das avaliações individuais e da observação do uso, tínhamos a oportunidade de explorar como os participantes explicavam suas percepções durante a conversa.
O que isso tem a ver com testes A/B
Quando penso nesse projeto a partir do vocabulário de produto digital, a ligação com testes A/B é direta. Um teste A/B é uma aplicação de experimentação: comparar versões, definir o que observar e analisar a diferença. Ele cabe no repertório de delineamento de experimentos e testes de hipóteses que eu já utilizava.
Nas mochilas, a investigação exigia também observar movimentos, examinar objetos físicos, perguntar sobre hábitos e escutar uma discussão. Cada procedimento ajudava a examinar uma parte do problema.
A pesquisa começava na decisão sobre como obter a informação. Colocar uma mochila nas mãos de um participante, organizar uma situação de escolha e preparar uma conversa eram partes desse trabalho, assim como pensar na análise dos dados.
Aprendizados, lições, erros e principais impactos
O projeto deu concretude a algo que atravessava minha experiência acadêmica: definir como medir, quem medir e como analisar os dados é parte central do trabalho. Com as mochilas, esse repertório permitiu investigar um produto de um setor que eu não conhecia.
Não há um erro que eu destacaria ou uma decisão que faria diferente nesse projeto. O planejamento foi feito com bastante apoio em referências de delineamento, justamente com o objetivo de obter dados sem viés. A ordem dos experimentos e o isolamento dos participantes em certas dinâmicas foram cuidados essenciais para evitar que as opiniões se contaminassem.
Essa é uma das principais lições do caso: a sequência das atividades e a interação entre participantes precisam ser tratadas como parte do método. Havia um momento para observar cada pessoa e colher sua avaliação individual, e outro para explorar as opiniões na discussão coletiva.
Uma lição aparece na combinação entre observar o uso e ouvir os participantes. Vimos diferenças no uso de alças e rodinhas, enquanto as conversas trouxeram desconforto com alças finas e o hábito de carregar por apenas uma alça uma mochila que tinha duas. A experiência de uso ganhava detalhes que podíamos examinar junto das preferências declaradas.
Outro aprendizado veio da escolha diante da mesa. As crianças menores se espelhavam nos adolescentes, e aquilo que poderia soar como uma impressão sobre comportamento apareceu numa atividade concreta. Conseguimos discutir essa influência a partir do que observamos durante a pesquisa.
O principal resultado desse trabalho foi reunir evidências sobre uso, estética e critérios de escolha para a discussão do próximo lançamento. A pesquisa trouxe questões concretas sobre alças, capacidade, compartimentos e relações entre os participantes. Era esse conhecimento sobre o produto e seus usuários que estávamos construindo.
Eu entrei no projeto sem entender de mochilas ou de moda. Minha contribuição veio de saber estruturar como aprender sobre aquele produto com as pessoas que o usavam. Foi um dos trabalhos mais interessantes de que participei justamente por colocar esse repertório estatístico em contato com objetos e comportamentos tão cotidianos.